Malamor
Malas são feitas e desfeitas. Num átimo. O menor dos
problemas, num mundo cheio deles. Mesmo as feias malas, surradas como o capote
de Gogol, mesmo elas querem sempre partir, mas também não se incomodam de ficar,
ficam sem problemas, se assim lhes for ordenado por um não-viajante de coração
frustrado. Mas o sofrer é para esses corações algo tão seu como o céu foi, ou
deveria ter sido, um dia, do condor. Ainda será um dia? “Será que ele não quer se libertar?” A
mala encardida estava no chão, foi feita lá mesmo, temperada com poeira de
livros, e lá ficou. Não foi. Não viajo. Não agora. A sofrida voz dele me disse
que ainda não é chegada a hora, e que, talvez, pior, essa hora nem venha, não
chegue pra depois não ter que ir embora – e por isso eu nem posso mais tentar fazer
a hora. Caminhando, no quarto, não canto, e não sei se espero acontecer. “A
noite é uma grande demora”, mas eu ia mesmo assim, Riobaldo, mesmo à noite,
mesmo que demorasse. Quilômetros se vencem em horas, com uma mala nas costas, e
os medos todos se evanescem com beijos que excitam e depois adormecem. Com beijos
na boca do mundo. Mas sem poder beijar, sem poder ver, é o amor, aquele que a
tudo vence, é ele que começa a ter medo. O medo de perecer. O medo de ficar
parado. Exangue. Estático. Apática, fleumática, a mala pareceu não se importar.
Ela parece ter o tempo dela, assim como ele tem o tempo dele – e me pediu um tempo. Um tempo a mais. Logo nesses tempos, e depois de tanto tempo - e que corre. Pediu que eu não fosse, fazendo com que a mala no chão ficasse. “Desespero
quieto às vezes é o melhor remédio que há”. Será? Será que cura mesmo. Mais que
meu abraço? Mais que o descanso no meu regaço? Sei não, jagunço, sei não. Será
que o condor não quer mais finalmente voar? Mas quem sabe é ele, e ele pediu
calma ao amor, pediu paciência ao furor, pediu moderação a Marat, como se quisesse
mais tempo de saudade, como se não tivesse lá tanta vontade, ou como se desejasse,
como a mala, simplesmente ficar como está. No chão, sem balanço, ventura,
sonho, mas segura. Preso, mas com alguma tranquilidade, talvez necessária para
enfrentar o torvelino que precede a liberdade, mas fazendo desta, agora, não
mais que uma possibilidade.

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