De novo, a chuva (com meu pai)

 






Não para de chover, mas é um tanto banal começar assim essas curtas e mal traçadas linhas. Tão banal quanto a chuva e o mal que estão lá fora. Mas falta pouco. Há meses escrevi também sobre a chuva, uma chuva simples, intransitiva, sem nada, como essa de agora, que só chove. Por nada. Incontinente. Entediante como uma solidão cercada de gente. Penso no meu pai, e tenho justamente vontade de contar isso a ele. Justo a ele. Só pra ele. Tanto a sensação boa que o pensamento traz, quanto a ruim, e a gente às vezes sofre é do pensamento - já ouvi uma vez. Queria lhe contar sobre a angústia que dá não poder contar a ele sobre isso. É estranho, mas é assim, e acho que é assim com todo mundo. Com todo mundo que ainda é gente nesse mundo – e nesse país miseravelmente mundano. Se meu pai aqui estivesse, eu lhe telefonaria agora. Talvez o fizesse sem demora, mas talvez também nem o fizesse. Mas nem sequer posso escolher, assim como não posso escolher sobre a chuva e o sol. Mas ainda há escolhas. Urgentes. E que demoraram muito, muitos e muitos dias, o tempo de uma vida - que num dia se foi. Faltam poucos dias, pouco tempo, para começarmos a nos livrar do mal que há lá fora, de parte dele, da parte que venera as demais, e faz da praga uma benção, nas palavras de um poeta teutônico de outrora. É chegada a hora, e meu pai, que assistia com paciência a chuva chicotear as folhas das árvores do mato onde nasceu, queria muito que essa hora chegasse, e queria muito assisti-la. Escreveu sobre ela. Impaciente. Só que o tempo do espírito não é o do calendário, aquele está sempre à frente deste, que é lento pras grandes coisas, e ligeiro pras outras, as ordinárias, as mundanas e desumanas, as que nos consomem amiúde, e que tornam nossas barbas encanecidas e fazem nossos cabelos fujões descansar nos sifões da vida (aflita). O tempo do "coração" não é o tempo do coração. O triste Brasil dos últimos anos levou meu pai, de tristeza do coração, e levou também tanta gente, tantos a quem só o acaso estendeu os braços diante de tanta falta de cuidado, vacinas, abrigo e proteção. Diante de tanta tristeza, de tanta morte e de tanta chuva que mata quem mora num país que tanto mata e que tanto desmata. Tanto. Sinto tanto a sua falta. A falta nos constitui, o desejo nos move e a saudade nos vertebra. Nunca serei verdadeiramente feliz como se você aqui estivesse, mas o se, como você sempre lembrava, não joga, e por aqui, onde uns dias - como hoje - chove, e n’outros bate sol, o jogo é duro, é jogado, e o mal será derrotado. E o será num domingo, quando a gente sempre se via – mas o pra sempre, tal qual na canção que você sempre cantarolava, sempre acaba. Aqui findam essas linhas, e a chuva, por um acaso, cessou justo agora. Mas é por pouco tempo, acho. E falta pouco tempo pra vencermos, pai.   

Comentários

  1. Imagine uma tempestade de 21 anos, sem ter como votar para mudar. A chuva de hoje pode passar sim, aliás deve passar mesmo. Não vejo sol no futuro, mas menos nuvens pesadas. As perdas nessa chuva intermitente dos últimos anos levou muita gente que não deveria ter ido, que poderia aqui estar para viver a expectativa de um novo clarear, mesmo que não venham a ser o sol. Fazem e farão falta, mas pais que deixaram para os filhos raízes sólidas de amor e solidariedade têm nos herdeiros disso um espelho projetando a perenidade de suas obras deixadas por aqui. Abraço.

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