Parupaisol

 



Ao ouvir Horowitz executando Liszt, fechei os olhos, inclinei o pescoço pra trás e senti prazerosamente o sol, com incomum pudor, aquecer o meu rosto. Alívio. Fugaz. Num átimo, rememorei meu pai sentado na cadeira, no quintal, jornal repousando no regaço, pescoço também alçado para trás, pegando o recomendado sol matinal. Quase todo dia. Todo dia de sol. Por um instante, imaginei perfeitamente a cena, tantas vezes vista da sala, e como que me fundi a ele, na mesma posição, pai e filho, ou pai e pai'. O sol que eu pego é o da tarde, o sol dos culpados, dos boêmios, dos filhos indisciplinados porém não menos apaixonados. E assim como ao sol da manhã se segue o da tarde, e ao pai se segue o filho, a noite sucede o dia e traz consigo a solidão etílica, por vezes soturna, sorumbática. Triste. Mas o sol sairá amanhã, alguma hora, e hora nenhuma, por pior que sejam as notícias dos jornais  - "quem lê tanta notícia?" - me faltarão a presença e o amor dele. Eternos - enquanto eu durar, e até que a filha suceda ao pai. Dias melhores virão.  E o sol nascerá.  Pra sempre

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