Um sol para o nosso tempo
Antônio Blumkin
Hoje quase escrevi pra ele. E depois daquilo, veio isso. Um post-scriptum, ligeiro, de um escrito que não veio, e feito para um amor que ainda não chegou, ou que ainda não se foi. O vírus incubado, ainda sem sintomas físicos. Nem a tosse do tísico, e nem o peito dele, ofegante, na minha cara lavada, e já um tanto resignada. Talvez amanhã, talvez em fevereiro, talvez nunca. Há um mundo lá fora, diz um dizer corriqueiro, uma divisa apócrifa, mas eu sigo aqui dentro. Longe e dentro, ele disse. Ensimesmado, cativado. Tenho que sair, ou então que possamos logo tirar as máscaras. Pra sempre? Mas, Riobaldo, o obedecer do amor é ao contrário, sempre. Estamos ou estaremos, todos, doentes. A boca dele é um vício. Um ideal. Uma essência viral que não se manifesta, um conteúdo que não encontrou sua forma, um rio ainda sem curso, mas que, tal qual naquelas dialéticas águas de João Cabral, ainda pode-se fazer discurso. O rio já passou? Nosso amor é palavras. E palavra é muito. É espírito que fala mas não se faz carne, e a carne dele, que poucas vezes toquei, me tocou ainda mais. No imo, na alma. Arrancou de mim o gozo, cortante, e deixou colado, no meu fundo, a esperança de que um amor submundo possa ser, um dia, vivido a céu aberto, sob o sol. Quando o sol sair. Se ele sair.
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