Até acordar
Sonhei
que escrevia um texto sobre ele, ou sonhei com frases para um texto sobre ele,
já não me lembro bem. Não sei também ao certo se foi sonho ou se tais
pensamentos se situavam naquela enevoada fronteira entre a vigília e o sono. Adormecido
totalmente acho mesmo que não estava, e a noite foi desgastante, contraída,
inconformada. Dormindo ou acordado, queria que ele tivesse a dimensão da coisa,
que dela se inteirasse sem fazer engano, e assim foi a lúgubre e
metálica melodia da noite, de uma madrugada fria por fora e um tanto triste por
dentro. Na manhã – quase tarde – meio fleumática, tento, com café preto e cansado, me lembrar,
sem êxito, das formas oníricas que dormiram comigo, ou que não me deixaram
dormir. Só me vem à cabeça, contudo, o que parece ter sido o recôndito motor
das sensações noturnas, e que, pouco antes de deitar, havia, ainda sem seu etílico
combustível de pale ale, me levado a escrever mensagens para ele. Não
arrumei nenhum pano e nenhum sangue, e escrevi mesmo foi pelo telefone, como
Donga, para depois entrar no banho quente, e não sem algum pranto – “te
amo, te amo”, ele emendou hoje. Havia na minha missiva retalhada em mensagens
uma preocupação excessiva com a verdade, aquela que vai além e supera a açodada
certeza sensível. Queria mesmo que ele soubesse, e que o soubesse mesmo que
tudo acabasse hoje mesmo, a importância que tem para mim. O seu “papel na história”,
por assim dizer, e talvez tudo isso aqui tenha mesmo um pouco de obsessão
historiográfica. Assim, é como se a verdade do amor, ao ser reconhecida,
pudesse funcionar como uma compensação subjetiva à sua não continuidade carnal,
colada, suada, em uma palavra, à não efetividade latejante do próprio amor. “Ele
não seguiu, mas existiu, enquanto há tanto ‘amor’ por aí que segue sem já existir”,
parecia vir em minha cabeça, mas não com essa clareza, e não a ponto de ser
digitado e enviado para ele. Mas ele existiu, um amor suspenso, num quarto suspenso,
num tempo de suspensão, quando só ele, o amor, parecia dar algum sentido ao
tempo. Só um amor, um amor que não se concretizava, parecia ser concreto
naqueles dias abstratos. As pales ales vieram e com elas alguma leve
melancolia, um livor resignado e mais algumas páginas de um romance que ele me
deu. Nele se diz que “ninguém esquece um furacão”, e eu assevero que suas mãos
e boca e tudo dele provocaram em mim uma irrupção dolorosa, de tão deliciosa
que foi, de tremor e de porra. Quente. Lava. Não sei se alguém consegue, talvez,
esquecer um furacão, mas eu jamais esquecerei aquela irrupção, e sempre amarei quem fez aquilo comigo. Àquela
hora ele já dormia, mas seguia comigo, nas páginas do romance, na cabeça, embaixo
da minha mesa, do jeito que fosse, e do único jeito que infelizmente pode hoje ser. Se um incontrolável
e boêmio desejo não alcança seu objeto, e se ele dorme sozinho, talvez, antes
de deitar, ele, o desejo, se contente, mesmo que de forma lenitiva, com os objetos produzidos
pelo seu próprio objeto. Sem alternativa, se cola neles, assim como um soldado
numa cama de campanha se cola na foto da amada ausente, e que talvez nunca mais
encontre de corpo presente. Seus textos, seus presentes e suas fotos me
acompanham antes de deitar numa cama sem companhia a não ser os confusos
pensamentos agora postos aqui, nessas mal traçadas e honestas linhas. Mas na
minha cama, que só costuma me abraçar quando ele já de pé está, eu posso, numa
madrugada de melhor sorte, quem sabe com ele sonhar, e nesse sonho nenhum
compromisso, nenhum acordo, nenhum mundano combinado poderá me impedir de viver
ao seu lado. Pra sempre. Até acordar.

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