A poça e as pedras (por enquanto)

 




Anteontem ele dormiu mais cedo, mais cedo do que sempre dorme, e que já é sempre mais cedo do que eu costumo dormir – só. Ele se deitou exausto e satisfeito, acho, e eu, depois, bem depois, adormeci, ébrio e angustiado, mas feliz por ele, cuja felicidade havia se feito solar e pedregosamente naqueles justos e últimos dias. Sim, o sorriso dele, inefável, se justifica por si só, pois se ele, seu dono, costuma sofrer pelo mundo, às vezes também sorri como se o fizesse pela humanidade, por aquele mesmo e sofrido mundo. O nosso. E é mesmo um sorriso do outro mundo, acreditem, e é capaz de até as pedras, e mesmo aquela pedra, a do poeta de Itabira, terem sorrido quando seu dono, com poesia, as pisou sorridente, cansado, alegre, decidido, revolucionário. Sempre revolucionário. Com a firmeza e a retidão das pedras, e com o frescor das poças. Conteúdo e forma, dentro ou fora, inteiro ou partido, e, às vezes, como agora, ainda mais inteiro porquanto sem partido – para poder melhor juntar as partes, as suas e as daqueles que poderão, um dia, fazer esboroar um odioso muro de pedra que nos separa de outro mundo. O nosso. “Por enquanto não posso” – me escreveu ele em meio a esses seus dias felizes, nos quais meu coração, ora confrangido e apertado, ora exultante e bombeado, aprendia, na prática, o sentido da palavra contradição. A prova do pudim está em comê-lo, disse certa feita um alemão, e a prova do amor, emendo eu, sem exatidão, talvez esteja em sofrê-lo. Ciúmes indisfarçáveis para qualquer um que tenha me observado nesses dias modorrentos, qualquer um, repito, e todos eles atendem pelo nome de ninguém. “E dizem que a solidão até que me cai bem”, e às vezes também faço planos, Maurício, às vezes também quero ir, quero sorrir. Se o sorriso dele é sempre justo, justo também me parecia estar com ele, nas pedras e nos pedaços d’água que elas cingem com tanto cuidado e cubismo, formando poças – uma dessas, disse-me ele, é magnética, e é a nossa, só nossa. “Por enquanto não posso”. Por enquanto, ainda há pedras no nosso caminho, embora nós ainda não tenhamos caminhado sobre pedras. Mas como “viver é um descuido prosseguido”, Riobaldo, eu me descuidei e mergulhei naquela poça, como se acreditasse, no fundo de um peito que se recusa a petrificar, que nosso amor é intemperismo, e que, com o sol na cabeça e a água da nossa poça, ele pudesse vir a corroer os mais duros dos pedregulhos e nos apontar o caminho das pedras. Uma vez este trilhado, o tal “por enquanto” será apenas areia e passado.

Comentários

Postagens mais visitadas