A boca do mundo

 


Se eu pudesse, sugaria todas as lágrimas dela

Com a boca

E se eu pudesse as sugaria 

assim que fossem vertidas

Não a quero triste, nunca, 

e as sugaria antes mesmo de terem sido choradas

 

Se eu pudesse, a beijaria ainda molhada

E o sal das suas lágrimas 

seriam o sal da minha terra [fértil]

E se eu pudesse

E eu não posso

Tudo que é troço seria removido, 

para que tudo com ela fosse vivido


Mas agora só posso palrear palavras,

e os pássaros de lá, assim como os de cá,

cantam, incontinenti, e dispensam palavras – talvez para não brigar

e quem sabe descansar no regaço de um exílio [longe mais ainda necessário]

 

Se eu pudesse, com uma lufada 

ou mesmo uma tépida brisa, 

ela feliz de novo ficaria

Como quem, por vontade ou poesia, 

comanda o próprio mundo

E se eu pudesse

Sugaria, uma vez mais, suas lágrimas, 

estas agora de alegria

Com a boca

E a boca dela é a alma do mundo

E o nosso mundo 

ainda tem todo o tempo do mundo.

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