Nonada, a lufada
A madrugada dele é a minha noite, e eu só acordo verdadeiramente quando lhe dou bom dia. Não, isso não é uma poesia, e nem pretende ser, afinal, alguém já disse, ou deveria tê-lo feito, que só os que não se pretendem poetas é que, de verdade, o são. Talvez mais batido do que se queixar sobre a dificuldade de traduzir em palavras o amor seja só mesmo escrever sobre essa queixa, o avesso do avesso de um sentimento, de quem se via nonada, como no sertão – que hoje está em todo lugar –, mas subitamente percebe que, com ele, com o amor por ele, tem tudo, ou pode ter tudo. Tudo corre o risco de ser cafona, mas talvez porque tudo seja realmente sincero – e isso devo a ele. Suas palavras. Suas tiradas. Num tempo de isolamento, num tempo de mônadas, num tempo onde o um não pode reconhecer no outro seu gênero senão à distância, senão de um modo nada feuerbaquiano, as palavras são o espírito de um tempo carente de espírito. E ele, o amor, é espirituoso. Num tempo do nada, nonada, onde não podemos fazer quase nada, elas, as palavras tiradas, são tudo. São elas que provocam o riso, a descontração muscular no rosto daqueles que, mesmo descontraídos, nunca se descontraem, nunca relaxam, ou quase nunca. Até choram, mas deveriam fazê-lo mais. Por que não? Caminhe em casa, mesmo que só, e só em casa, mas contra o vento. Sempre. Eles vão soprar a mudança. Logo. A culpa e o café seguem. Repetitivos. E finalmente se adequaram a tempos que se tornaram, eles mesmos, repetitivos. A obsessão finalmente se encontrou com um tempo obsessivo, onde tudo parece acontecer justamente porque nada pode realmente acontecer. O erro mora em mim, mas talvez ele seja, também, o acerto em uma vida errada. No caminho tem uma pedra. Pedaços dela. Partidos. Amores covardes não chegam a amores, e a estória acaba aqui, cantou Silvio. Mas faz tempo. Mas não acaba. A substância insiste em fazer-se sujeito, como na esperança hegeliana de outrora, ainda que, para tal, tenha que sujeitar-se à crítica, à sua crítica, culpada, e, um dia, quem sabe, à de outrem, à dos outros. Mas, sem o outro, sem a quem dou bom dia quando para ele já é quase tarde, não há desejo, não há sujeito, não há vida. Errado, culpado e com café, com ele, que “às madrugadas”, como disse-me certa feita, põe-se a criar, sinto-me transformar. Não, não vou melhorar. As esperanças, ou ao menos estas, estão todas mortas, e as ilusões, balzaquianamente perdidas. Mas com ele, com ele e suas palavras, suas tiradas, com ele e seu cabelo, lindo, com ele e seu sorriso, quase liberto – e mais belo do que os fácil e ordinariamente libertos –, com ele e sua boca, inefável, com ele e seus olhos, com ele todo dia, o dia todo, longe e perto, pelas ondas, parabólicas, com ele me sinto ao menos capaz de me permitir respirar em dias rarefeitos, e o efeito disso é não menos do que a vida, viva e revel, que sobrevive nos resíduos, que adentra pelas frestas, que sacode Hades e que, como a buñueliana ilusão que viaja de trem (mineiro e azul), me lembra que não tá morto quem peleia, e o faz por meio de uma breve e suave lufada.

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