As flores do bem

 


As dores individuais – mesmo as dores do parto – não são nada perto das dores do mundo, mas ocorre que estas às vezes insistem em se manifestar por meio daquelas. Acordo tarde, como de hábito, mas a chuva que chicoteia o pátio abaixo do meu quarto me serve de justificativa para ficar mais algum tempo na cama, olhando o celular, o maldito celular, o desnecessário celular, cada vez mais necessário quando a necessidade do encontro físico não se pode realizar. Assim, em pouco tempo, percebo que já perdi muito tempo, e novamente ela, a culpa, aparece, desperta e me dá o seu sorumbático bom dia, um dia que já começou tarde, enjoado e, claro, culpado. A essa hora, se eu fizesse o certo, tal qual indicou faz tempo Spike Lee, já teria trabalhado um tanto e, quem sabe, me sentiria menos culpado. Quem sabe?  Ensimesmado, tal qual o espírito hegeliano, sigo nas minhas obsessões especulativas, e o faço em meio a um cutucar incontinente do pescoço. Acho que nunca vou conseguir parar, e acho que talvez devesse desistir de tentar. E do que mais posso desistir? Do que mais poderá, enfim, abdicar um homem que chegou aos quarenta e já viu que seus músculos encurtarem e seus sonhos de menino evanescerem, ano após ano, numa atmosfera curvada que se tornou lúgubre, enevoada e hoje irrespirável. Literalmente irrespirável. “When you ain’t got nothing, you got nothing to lose”, cantou lá atrás um bardo, talvez parafraseando os versos finais de um antigo Manifesto, que depositava esperanças naqueles que tinham um mundo a ganhar.

Há um vírus lá fora, e por isso estamos aqui dentro. Dentro de casa, dentro de nós. Com os nossos, com os do bem, mas “e você, que lado você está?” O mundo cheira à morte, mas isso em nada impede que me convoquem para reuniões burocráticas cujas realizações apenas naturalizam esse cotidiano fétido e imparável.  É como se justamente por não podermos fazer nada, acabássemos por nada fazer. Nada de realmente importante. Nada de transformador. Nada. Por hábito, apatia, lassidão ou inércia, tornamo-nos todos artífices da nossa própria conformação, da nossa alienação. Trabalhos e afazeres sem sentido num mundo que parece já desprovido de qualquer sentido. O gole no café, já depois do meio dia, me faz, de súbito, lembrar da Clara, e talvez esteja nela, e só nela, o sentido da vida. Uma vida de vício e de culpa, entremeada por fungadas de ar puro e laivos de esperança que só os sorrisos melífluos das crianças pode trazer. A Clara não merece um mundo de máscaras, e nem um país onde a burguesia perdeu qualquer pudor e segue seu histórico baile de opressão, mas agora sem máscaras, como disse certa feita Florestan.

Hoje nasceu, ansioso, apressado, o pequeno Martin, e trouxe com ele a primavera, ainda que com chuva, ainda que estranha. Os sonhos não envelhecem, nem em Minas nem aqui. Talvez ele e Clara se tornem amigos, e talvez, junto com outras tantas flores, uma verdadeira primavera quebre o ramerrão e imponha luz à persistente escuridão. Minha angústia talvez jamais vá passar, mas pouco importa, pois Clara, Martin e os seus futuros companheiros já têm, desde já, não só um mundo a ganhar, como também a salvar. E o mundo começa agora. Apenas começamos.  

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