O pesadelo no poder e o sonho de viver
Por Antônio Blumkin
"Sonhar não custa nada, o meu sonho é tão
real" ( Dico da Viola / Moleque Silveira / Paulinho Mocidade)
Nos últimos dois meses, todos os pesadelos que
tenho não são senão compostos por situações que, há dois meses, eram
simplesmente reais, prosaicas. Agora, quando a vigília cessa, quando a obstinada
e vigilante razão, depois de tantos desejos e vírus vigiar, pode finalmente descansar,
tem lugar o pavor, o inominável, aquilo com o qual não sabemos lidar.
Dialeticamente, em tempos pandêmicos, esses assombros indizíveis, esse medo
profundo, esse "real' lacaniano", toma agora a forma daquilo que há bem
pouco tempo eram apenas elementos ordinários do real, agora no sentido
convencional do termo, isto é, da realidade. De súbito, me vejo na rua ou na
casa de um amigo, e tomo ciência de que estamos todos como sempre estivemos, e
que eu tinha acabado de cumprimentá-los, abraçá-los, beijá-los, bebido em seus
copos ou simplesmente passado muito perto deles, compartilhado afetos e
espaços, respirado o mesmo ar. Desesperado, percebo que, simplesmente, eles e
eu estamos fazendo tudo errado, que agora podemos estar todos contaminados e
torço para que aquilo não seja senão um pesadelo, e que eu possa acordar logo,
redimindo, num abrir de olhos, a mim e a eles. Quando finalmente este momento
vem, e ocorre esse despertar salvador, outro pavor aparece, pois, em vigília
novamente, num átimo a razão me lembra que o apavorante "real" de
Lacan - o qual, no pesadelo, havia, há pouco, assumido as formas do antigo e prosaico normal, tendo tomando
por aparência o bom e velho convívio social - têm sido, de fato, a realidade - o
real no sentido de normal - para milhões de pessoas, as quais, pela lógica do
capital e pelo ódio de um presidente boçal, estão sendo coagidas a viver hoje como
se estivessem há dois meses atrás. Enquanto nós, de um lado, parecemos desejar
– e os pesadelos o demonstram ainda que pela negativa – que o tal vírus não
fosse senão uma gripezinha, de outro, aqueles que propagam essa falsa sentença
desejam, na verdade, é que ele seja o mais letal possível, eliminado, assim,
trabalhadores, negros e pobres do seu idealizado e futuro convívio social, que
de social já não teria mais do que o nome. Que tempos são esses em que nossos
pesadelos, se ocorridos há dois meses, não seriam senão sonhos bons? Que tempos
são esses em que parecemos todos sonolentos diante uma realidade que assumiu a
forma do mal, do lacaniano "real", na medida em que a nossa sociabilidade
parece ser finalmente estruturada pelos mais secretos e perversos desejos do
capital? Quantos de nós não acordamos desde 1 de janeiro de 2019 e desejamos
que a imagem de um país governado pelo mais absoluto desvario não tenha sido senão
um pesadelo, tal como ocorre algumas manhãs seguintes à morte de algum amigo ou
parente querido? E não vamos nós agora, em função do poder estar nas mãos de
neofascistas sem razão e coração, perder realmente alguns amigos e parentes queridos?
A cada dia que acordamos e sorvemos um amargo, puro e bom café preto, nos
damos conta, ou pelos menos deveríamos nos dar, de que estamos mesmo vivendo
num país em que, ao ter elevado ao poder, no presente, a síntese dos seus mais
ancestrais e modernos traços opressivos, autocráticos e preconceituosos, vem
perdendo gente, vem perdendo povo, vem perdendo índios e qualquer chance de
construir algo realmente novo. Ao levantar da cama, para os que têm cama, uma
fungada de ar, um ar que hoje parece rarefeito e mortífero, traz consigo a
percepção, ao menos para os que ainda se movem pela razão, de que o dito
"país do futuro" se transforma, no presente, em um pesadelo que nenhum
dos nossos antepassados poderia ter sequer sonhado. Ao fazer da realidade o
esteio material dos profanos desejos do capital, os quais o próprio capital,
por conta própria, ainda não tinha ousado realizar, o boçal no poder faz da
vida de muito poucos um sonho antes proibido, e faz da vida de milhões um
angustiante pesadelo cujo aliviante fim virá, para milhares de infelizes sem herança e sem sorte,
infelizmente por meio da morte. Nossa civilização brasileira, que nunca foi lá muito
civilizada, parece agora atingir seu ocaso quando, como nas palavras de Paulo
Autran na película de Gláuber Rocha, "pela força, pelo amor da força, pela
harmonia universal dos infernos", Bolsonaro vem tentando colocar nossas
"histéricas tradições em ordem", fazendo com que, tal qual cantou o
poeta, "nossa gente que trabalhou a vida inteira" já não tenha
"mais direito a nada", e com que "só o acaso" e o combalido
SUS, com seus médicos e heroicas enfermeiras, estendam "os braços a quem
procura abrigo e proteção". Mas, se nossos inimigos não trataram de
macabramente fundir pesadelo e realidade, de fazer da mentira a verdade, não
deveríamos então nós também ousar lutar por nossos sonhos, deixando pra lá a
resignante e inercial concepção que diz que eles não são podem ser verdadeiramente reais
no mundo real? Se o antes impossível desejo do capital se tornou, finalmente,
possível, se ele se tornou realidade, se ele se tornou o nosso apavorante
"real", não deveríamos nós então também apresentar como possíveis nossos
sonhos ditos impossíveis? Se o pesadelo se fez verdade, se o verbo da morte se
faz carne, se a morte se encontra no poder, não deveríamos nós, em nome do
viver, apresentar com celeridade nosso sagrado desejo de uma sociedade para
além do capital, na qual só os museus acolherão fascistas e o dogma neoliberal? Não seria essa, por falta de uma alternativa usual, a única,
verdadeira e radical maneira de resolvermos pela raiz nossos problemas, de modo que
nossos filhos, que sem das maldades do mundo saber nos acordam sorrindo, possam
com dignidade viver, passear lá fora, se abraçar, respirar um ar limpo, dormir
e, então, novamente sonhar?

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