Por nada
Ontem foi legal. Quase sempre o ontem foi legal. Angustiante
é o agora. Angustiante é a culpa, o corpo e a alma de alguém que se sente
desalmado. Por nada. Não houve nada, nada propriamente dito. Nada de diferente.
Apenas um ontem divertido e demasiadamente etílico. Amigos, risos, sons,
prosas, cevada e licor. Mais do mesmo. Tudo em excesso, apenas para que a falta
fique, hoje, evidente, demonstrando que existe um verdadeiro sujeito aqui. Mais
do mesmo, e a mesma culpa. O inconsciente já sofre antes mesmo do corpo despertar. Ainda
deitado, encontro flagelo na cama, quando personagens aparecem nos sonhos para
me inquirir e condenar, isto é, quando eu mesmo me inquiro e me condeno por
meio deles. Por nada. Pior que um onírico inquisidor, porém, só a vigília de um
mundo vigiado. A filha me chama. O dia já começou há dias, o sol ainda arde, os
afazeres se acavalaram e o café, puro e forte, ainda há de ser tomado. E ele o
será até o fim, da xícara e da vida. A barriga não está boa, e o mundo está
pior. Não obstante todo o mal, está um dia lindo lá fora, e eu estou aqui
dentro, do escritório e de mim. Ensimesmado. Obsessivo. O tempo passa, e eu o perco.
O relógio é célere, mas a angústia é lenta. O coração, num átimo, se confrange,
e o faz por nada, aparentemente por nada, por quase nada, ou apenas para
mostrar que ainda é coração. “Invejo seus sofrimentos, porque ao menos você vive”,
disse a balzaquiana Sra. de Bargeton a Luciano. Alvos iranianos podem ser
atacados a qualquer momento, e vidas vizinhas, sobretudo negras e empobrecidas,
são retiradas a todo instante com uma normalidade tamanha que não faz senão evidenciar
o quão anormais nos tornamos ultimamente. Já não somos tão jovens – meu corpo
ressaqueado alerta – e os preconceitos mais arcaicos e atrozes do país se rejuvenescem,
alimentados pela tranquilidade conivente dos inocentes do Leblon. Atormentada e
adulterada pelo álcool da véspera, a razão nos impele a resistir, conquanto o
sofrimento pareça ser inseparável de uma vida resistente, de uma vida que quer
ir além, sonha além, bebe além e faz aquém. Que vive aquém. A filha me chama de
novo. Ela só quer jogar bola e depois tomar sorvete na lanchonete, me ver de
perto. Ela não quer quase nada. Na sua puerilidade, ela só quer viver. De pronto,
a aloco entre as tais gerações futuras do velho Bronstein, aquelas que livrarão
o mundo de todo o mal e opressão para que possam gozá-lo plenamente. E elas o farão
por nada, por quase nada, ou apenas para que todos possam, um dia, jogar bola,
tomar sorvete, se ver de perto, sorrir, prosear, fazer mais do mesmo, beber e,
quem sabe, viver sem sofrer.
Antônio
Blumkin

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