O café e a culpa.




Há poucas coisas melhores do que o primeiro gole no café ao acordar. Ele não aplaca a culpa da véspera, não aplaca a culpa da vida, não aplaca a culpa de uma vida culpada. Talvez haja algum momento em que todos nós, em meio aos goles de café matinais, nos perguntamos sobre o quanto ainda viveremos, e recapitulamos o quanto já vivemos. O medo de saber que fizemos muito pouco só não é maior do que o de constatar que menos ainda faremos. Alguns amores são para sempre, mesmo que sejam hoje amores partidos, amores feitos finitos. Alguns sorrisos são para sempre, mesmo que este sempre acabe, como disse lá o poeta. O choro e culpa, a culpa e o choro, é que não acabam, mas talvez a sua existência não seja senão consequência inexpugnável dos sorrisos pretéritos, dos amores pretéritos, e de um futuro do pretérito que seria, mas que não será, pelo menos não por nós. Não viveremos para que seja. Não agiremos para que seja. A angústia é o que nos mata a cada dia, mas é também, dialeticamente, o que nos mantém vivos um dia após o outro. O ser e o sofrer talvez sejam mesmo inseparáveis, e o desejo de vida é de ambos o indefectível parceiro. A cada gole do café, e a cada suspiro de alívio e resignação, alegremente, ou com uma triste alegria romântica, “retornamos à lodosa estrada, na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça”, como escreveu Baudelaire. A nossa finitude individual não nos possibilita viver os sonhos, e por isso mesmo é que sonhamos. Mas aquilo que o indivíduo não pode, a espécie pode, pensava Feuerbach. Os antes de nós, e sobretudo os nossos de antes, eles também desejaram, sofreram, fizeram, e eles também vivem em nós, de alguma forma. Não os enterramos, pois ainda não estamos mortos de espírito, e os que vierem depois de nós prolongarão nossos sonhos, projetos e possibilidades universais. Nós também viveremos neles, e estaremos nos seus feitos e nas suas dores. Por isso os sorrisos dos mais novos são mais valiosos do que os nossos, vetustos. Eles também não farão tudo que desejam, mas farão parte do que nós desejamos um dia. Eles também tomarão goles de café forte e puro, também chorarão, também desejarão, também sofrerão, mas deles será a tarefa de sua emancipação neste mundo de dor, a qual, também nos redimirá e nos emancipará. A alegria das pequenas Claras, a felicidade pueril das lindas Auroras, a ingênua e inabalável coragem dos Vicentes, Joãos e Joaquins diante dos nossos ressaqueados e culpados goles de café são a prova de que os nossos dias, um dia, serão para sempre.

                                                                                        Antônio Blumkin

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