O cheiro da vida
Antônio
Blumkin
Na
janela do prédio ao lado, uma menina de traços noir fuma seu cigarro, e
parece tão tranquila, tão serena. Sereníssima. É um dia triste, como quase
todos são esses dias de hoje em dia, mas a imagem é bela. Inegavelmente bela. A
cinza fumaça se entretece com o cinza do céu, e a menina sorri devagar,
parecendo se aliviar, apenas, claro, para depois novamente se preocupar – mas
essa cena eu já não vejo, só pressuponho, imagino, e o faço apenas de passagem
para não quebrar a beleza da cena realmente vista. Belos também são os cabelos
de fogo de uma tal de Carol, me disseram um dia. Algumas belezas falam por si
só. São tão belas que acalmam, tal como uma respiração profunda, por meio da
qual um pouco do cheiro da vida se faz sentir. É como se através dessa
inspiração profunda, dessa fungada forçada, fosse possível acessar de modo breve,
porém intenso, a vida, a vida per se, o gênero humano do
esquecido Feuerbach, ou, para recorrer às palavras de outro vetusto filósofo
alemão, a alma do mundo. A beleza de algumas cenas, de algumas pessoas,
de algumas palavras, gestos e acordes parecem poder nos acalmar, mesmo que por
um instante apenas. Mas, o que de bom hoje em dia, como a calma, pode durar
mais do que um instante apenas? Depois do cheiro da vida, vem a vida, a vida cotidiana
e sua lodosa estrada de que falou Baudelaire, essa estrada em que
choramos “na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça”. Só que chorar, às vezes,
também é belo, e também é pelo choro que chegamos à vida, tanto no início,
quanto, muitas vezes, no meio, no meio da tal estrada, quando chorar é preciso
para viver, e viver parece não ser preciso, disse lá, certa feita, a poesia para navegantes de outrora. Alguns deles tiveram calma. Certamente o tiveram. Alguns deles também
choraram, certamente. Todos eles, de certa forma, tinham sua beleza, e alguns deles, há muito tempo, sabe-se lá por quê, fugiram pra um
lugar ao sul, um lugar qualquer, onde hoje estamos nós, todos nós,
incluindo a menina que fuma seu cigarro e a tal da Carol, tentando sentir,
mesmo que brevemente, o cheiro da vida e encontrar a alma do mundo em um
país à deriva, no qual outras fumaças, queimadas, nos assombram a alma. Ora,
mas se uma menina de aproximadamente seis anos ouve os acordes e versos fugitivos
de Gil e, num átimo, se põe a cantarolar e dançar como se não só o cheiro da
vida, mas também a própria vida já estivesse aqui, entre nós, pronta para ser
vivida, cantada e dançada, como não ficar calmo? Como, mesmo que por um
instante apenas, não se lembrar de que aqueles cujo sofrimento é cada vez mais o
sofrimento universal insistem, com ou sem beleza, em cantar, dançar, chorar e viver? Como
não respirar fundo, observar a beleza da cena, chorar e, assim, mais uma vez,
se pôr a viver, nem que seja apenas para que, quando crescer, a alma da menina
e de todos aqueles que universalmente sofrem possam, finalmente, encontrar a alma
do mundo?

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