Águas do fim
Antônio Blumkin
“Pai, de onde vem a água?”, perguntou, lá da sala, a filha, cuja voz estridente e um pouco metálica adentrou sem dificuldades o escritório de porta fechada. Lá dentro, disperso, mas desejando estar absorto, o pai, culpado, sempre culpado, tentava ler sobre as dificuldades organizativas de um agrupamento político rebelde sob o Estado Novo. Como chegar aos trabalhadores, falar a eles e explicar-lhes as forças cegas às quais estão submetidos? – se perguntavam seus antepassados que agora figuravam nas páginas impressas sustentadas por sua mão direita (na esquerda, o café). Colocada por volta de 1939 por um punhado de homens semiclandestinos em algum lugar de São Paulo, a questão talvez seja ainda mais fundamental agora, ainda mais crucial no Brasil sob as rédeas de um boçal. Venta, e venta muito, mas o vento ignora Dylan e não sopra nenhuma resposta. “Pai, de onde vem a água?”, insistia a filha. As respostas para as duas questões, a da filha e a dos revolucionários de outrora, são complexas, e por um instante a reles mente professoral tentou alinhavar algo, apenas para no instante seguinte desistir. Talvez não seja equivocado dizer que se a resposta à questão histórica dos revolucionários não for encontrada corre-se o risco da questão biológica da filha se tornar, ela mesma, vã. Talvez só os que hoje se matam de trabalhar por cada vez menos possam salvar o meio ambiente da sanha destruidora daqueles para os quais trabalham, ou das forças cegas que comandam estes últimos. Sem água não há vida, nem mesmo essa vida aguada que levamos hoje. Outras questões vêm à mente do cada vez mais descentrado pai do escritório. Por que ele não consegue se concentrar? Por que a dispersão lhe tira a razão? Por que seus vícios superam suas eventuais virtudes? Por que ele se cutuca incontinentemente, e por que são incontinentes a sua culpa e a sua angústia? Nesse amálgama de indagações, ficava cada vez mais difícil ao homem do escritório, ao homem que bebe e toma café demais, ao homem que dorme muito e mal, responder à filha sobre a origem da água, assim como ajudar, tardia porém urgentemente, aqueles seus antepassados que lutaram contra a covardia de Filinto Muller e consortes, os quais, por falta de sorte nossa e outras razões mais, parecem estar no poder hoje. “Pai, de onde vem a água?”. Inexplicavelmente, o homem do escritório, o angustiado homem do escritório, olha o impacto do vento nas folhas das árvores e é acometido por uma repentina vontade chorar. Ele não chora, ou pelo menos não o faz de verdade, não o faz plenamente. Ele não encontra as razões das lágrimas e, como um bom homem racional, se recusa a deixá-las cair sem uma razão aparente. Triste e sereno, lhe vem à cabeça que talvez sejam lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim, como cantou certa feita Herbert. Talvez seja mesmo o fim. “Talvez sua mãe vá morar em outra casa, filha” – pensou, mas, claro, sequer balbuciou o pai. De onde vêm as lágrimas? De onde vem a água?
“Pai, de onde vem a água?”, perguntou, lá da sala, a filha, cuja voz estridente e um pouco metálica adentrou sem dificuldades o escritório de porta fechada. Lá dentro, disperso, mas desejando estar absorto, o pai, culpado, sempre culpado, tentava ler sobre as dificuldades organizativas de um agrupamento político rebelde sob o Estado Novo. Como chegar aos trabalhadores, falar a eles e explicar-lhes as forças cegas às quais estão submetidos? – se perguntavam seus antepassados que agora figuravam nas páginas impressas sustentadas por sua mão direita (na esquerda, o café). Colocada por volta de 1939 por um punhado de homens semiclandestinos em algum lugar de São Paulo, a questão talvez seja ainda mais fundamental agora, ainda mais crucial no Brasil sob as rédeas de um boçal. Venta, e venta muito, mas o vento ignora Dylan e não sopra nenhuma resposta. “Pai, de onde vem a água?”, insistia a filha. As respostas para as duas questões, a da filha e a dos revolucionários de outrora, são complexas, e por um instante a reles mente professoral tentou alinhavar algo, apenas para no instante seguinte desistir. Talvez não seja equivocado dizer que se a resposta à questão histórica dos revolucionários não for encontrada corre-se o risco da questão biológica da filha se tornar, ela mesma, vã. Talvez só os que hoje se matam de trabalhar por cada vez menos possam salvar o meio ambiente da sanha destruidora daqueles para os quais trabalham, ou das forças cegas que comandam estes últimos. Sem água não há vida, nem mesmo essa vida aguada que levamos hoje. Outras questões vêm à mente do cada vez mais descentrado pai do escritório. Por que ele não consegue se concentrar? Por que a dispersão lhe tira a razão? Por que seus vícios superam suas eventuais virtudes? Por que ele se cutuca incontinentemente, e por que são incontinentes a sua culpa e a sua angústia? Nesse amálgama de indagações, ficava cada vez mais difícil ao homem do escritório, ao homem que bebe e toma café demais, ao homem que dorme muito e mal, responder à filha sobre a origem da água, assim como ajudar, tardia porém urgentemente, aqueles seus antepassados que lutaram contra a covardia de Filinto Muller e consortes, os quais, por falta de sorte nossa e outras razões mais, parecem estar no poder hoje. “Pai, de onde vem a água?”. Inexplicavelmente, o homem do escritório, o angustiado homem do escritório, olha o impacto do vento nas folhas das árvores e é acometido por uma repentina vontade chorar. Ele não chora, ou pelo menos não o faz de verdade, não o faz plenamente. Ele não encontra as razões das lágrimas e, como um bom homem racional, se recusa a deixá-las cair sem uma razão aparente. Triste e sereno, lhe vem à cabeça que talvez sejam lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim, como cantou certa feita Herbert. Talvez seja mesmo o fim. “Talvez sua mãe vá morar em outra casa, filha” – pensou, mas, claro, sequer balbuciou o pai. De onde vêm as lágrimas? De onde vem a água?

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